Segunda-feira. Seis de junho. Tarde fria na serra da Borborema. Reunidos na sala do "Velho Anita Cabral", aquecia-nos o desvendar das teorias cálidas das Literaturas Marginais. Teresa Otranto desfiava competentemente a "poética dos Mangues" deChico Science e a "Metáfora da Malandragem" de Raul Seixas. Goretti Ribeiro explanava com deslumbramento o realismo grotesco das "Aventuras de Pedro Malasarte", à luz bakhtiniana. Sala cheia de espectadores que saboreavam ávidos as delícias do aprender e o descortinar das teorias aplicadas nos córpora em análise.
Naquele ínterim, penetrávamos nas reflexões de um monólogo interior: Como negar a existência de um mestrado que se impõe por si mesmo na realização de Seminários tão brilhantes, coordenados com maestria pela batuta da Drª Elizabeth Marinheiro, em sua disciplina Literaturas Marginais? Como calar as descobertas inteligentes dos alunos de lteratura Nordestina Contemporânea tão bem orientadas pela Drª Maria do Socorro Oliveira, enfatizando o obsoletismo dos Códigos frente ao continuun tipológico de textos? Como ofuscar os anteprojetos tão bem encaminhados nas iluminadas aulas de Metodologia da Pesquisa Científica da Drª Maria Auxiliadora Bezerra? Como obscurecer os percursos gerativos de sentido, eficientemente abordados nas aulas de Semiótica Textual do Dr. Sebastien Joachim? Como ocultar o ecletismo, excelentemente capitaneado das Histórias das Idéias do Dr. José Otávio? Como obliterar, enfim, os fatores de textualidade tão bem explicitados pela Drª Marinalva Freire?
Não! Efetivamente impossível! Não podemos retroceder no tempo. Não se pode anular uma conquista. "Sonho que se sonha só é um sonho que se sonha só". Porém, nosso sonho é coletivo! E "sonho que se sonha junto é uma realidade". Uma realidade acalentada há quatro longos anos. O realismo grotesco não nos espanta, nem nos assusta. Assim, como Chico Science saiu dos mangues para "as cenas da cidade", o nosso Mestrado em Produção de Textos e Literaturas Marginais ocupará o seu merecido lugar. Assim confiamos. Assim acreditamos!
terça-feira, 15 de abril de 2008
Um sonho coletivo
Dimensão - Revista Internacional de Poesia
Dimensão é uma "publicação aberta a todos os poetas, desde que sua obra esteja de acordo com a linha editorial de modernidade, contenção verbal, rigor, elaboração da linguagem e/ou pesquisa, experimentação e criação de novas linguagens". Inicialmente, vem com uma explicativa sobre a "Finalidade da Arte" enfatizando a posição da arte no contexto social, ressaltando as "duas concepções opostas, irreconciliáveis: a arte vista em si e por si mesma, como produto estético, e a arte entendida como expressão do ser humano, com multiplicidade de objetivos e funções, entre os quais, também o estético". Em seguida, a revista é organizada em seções cujo teor versa sobre:
- Poemas em textos, ou seja, poemas pós-modernistas, considerados "concretos" por centralizarem-se na palavra como coisa, num procedimento antidiscursivo. Dessa forma, seus autores valem-se "da fragmentação de palavras, da associação de vocábulos pela aproximação fônica, atomizam partes do discurso, rompem com a sintaxe tradicional, desintegram os vocábulos em seus morfemas explorando o ludismo sonoro e o branco da página..."
- Visuais, isto é, poemas chamados "processo" por instaurarem uma nova codificação para o texto, a partir do "processo" e não das palavras, o que resulta numa nova linguagem. Confere-se, assim, ênfase ao projeto e sua visualização. Como dizem seus autores "a palavra pode ser ou não usada, não se trata de um elemento indispensável."
- A insurreição do neo-branco mostrando que o movimento não é uma "escola", não possui princípios normativos como o verso livre ou as "palavras em liberdade" e que o seu ponto de contato com a Modernidade está na metalinguagem.
- Seção especial ressaltando "La poesia experimental uruguaya" de cunho pós-modernista, cujas tendências se valem dos últimos recursos da técnica, no que diz respeito à "multimidia".
Como vimos, "Dimensão" é uma revista que extrapola os parâmetros dos "já ditos" para se revelar à liberdade plena de criação e à multiplicidade sígnica.
Campina Grande, 15.11.95
Campina Grande - Pólo de Cultura
Chegou setembro! E com ele os Congressos Literários, Campina Grande abriga centenas de literatos, jornalistas, professores e poetas que se amalgamam nos palcos do Serevino Cabral em somatórios sucessivos de discursos, os mais salutares. No ecletismo de sua programação, os Congressos de Campina (como são conhecidos) viabilizam desde o estudo do romance paraibano, à análise do poema "Relógio" de Cassiano Ricardo, às alegorias em Augusto dos Anjos ou a linguagem poética contemporânea da publicidade. É a poesia, tradicionalmente circunscrita como discurso intimista e subjetivo, estudada e analisada na sua mais recente vertente - a poesia multimídia; o computador, como mídia de criação poética. São as novas formas de leituras, a partir das possibilidades de transcodificação simultânea. São os quadrinhos e a literatura sob o olhar crítico de Moacyr Cirne (RJ), chocando a todos com a sua irreverência; a marginalidade literária propriamente dita... A leitura intersemiótica entre o texto verbal e o texto cinematográfico no intercruzamento sígnico é mostrada por Maria Luíza Coelho (Holanda). Enquanto isso, Helder Pinheiro (PB) faz seu "passeio mítico" com Mário Quintana, e Geralda Medeiros (PB) ressalta os temas polêmicos e a "linguagem proibida" de Hermilo Borba Filho, entre tantos outros temas abordados e discutidos.
Entretanto, "a festa da palavra" não se restringe aos palcos do Severino CAbral. O discurso pluralizante continua nas ruas, nas praças, na feira...
Intelectuais e poetas transitam soba a indeferença de uns ou o olhar atônito de outros... A beleza de Márcia Navarro (RS) suscita metáforas! Domício Proença Filho (RJ) já não tematiza, apenas, a poesia brasileira, contemporânea, mas também, o lirismo incomum das coisas simples, fruindo a "palavra na construção do homem". Vera Casa Nova (MG) recupera discursos anteriores no colorido da rede que embalará os sonos do amado, enquanto Campina se avulta aos olhos dos que a contemplam.
Os Congressos já são saudades! No entanto, temos certeza, de que outros setembros virão e serão aguardados como "crisálidas da esperança às vésperas de voar". E Campina, fará a renovação do Festim. A palavra será, mais uma vez, clareira que iluminará mentes e alimentará espíritos, por seres tu, CAMPINA, PÓLO DE CULTURA.
Texto publicado no Diário da Borborema.
Campina Grande, 11.10.94
Mensagem para Graziela
Cara Graziela.
O grande D. Helder diz: "Não deixe que emudeçam seus sinos d'alma! Descubra pessoas amigas cujos sinos interiores se somem, se completem, se harmonizem..."
Nós que fazemos a ABS/Regional de Campina Grande, descobrimos você como amiga ideal para fazermos essa junção "somando sinos interiores" numa profusão de alegria para cantar-lhe parabéns.
Diz ainda D. Helder que "há corações tão vazios, tão sem amor, que flutuam, como penas ao vento: não chegam a subir, porque qualquer sopro os arrasta para longe..." Com você é diferente! Você é tradução de AMOR, de otimismo, de FÉ, comunicação, de solidariedade, de jovialidade; porque "ser jovem é amar a vida, cantar a vida, abraçar a vida... é ser aberto para o nosso respeito e imutável... é beber um lindo pôr do sol, ar livre e noites estreladas... é ter os os olhos molhados de esperança... é realimentar o entusiasmo, o sorriso, a esperança, a alegria a cada amanhecer... é amar a simplicidade, o vento, o perfume das flores, o canto dos pássaros... é misturar tudo isso com a idade que se tenha... com uma profunda e permanente vontade de SER" (Arthur da Távola).
Parabéns - Graziela. Não diremos mais palavras para externar-lhe o nosso carinho. Nem sempre as palavras dizem tudo. Preferimos calar-nos, pois "os maiores tumultos dentro de nós se dão em horas de lábios cerrados!"
Deixemos que as rosas falem por nós, no imensurável de sua beleza, suavidade e perfume, sendo portadores da nossa desmedida estima e admiração.
Em nome da Associação de Semiótica.
Campina Grande, 20.03.88
domingo, 13 de abril de 2008
A ciência dos significados na ação pedagógica
Sabemos que os sistemas tradicionais do ensino fundamentam sua metodologia na comunicação verbal. Os propósitos e fins da escola tendem a adaptar os indivíduos ao mundo social mediante a aprendizagem do saber fazer verbal. À força de conceituar e conceituar e sistematizar a ciência, também fomos reduzindo os valores a meras verbalizações.
O “saber fazer” proporcionado pela escola é fundamentalmente lingüístico; são fórmulas, regras, normas... Um exame objetivo da realidade escolar nos provaria como nos preocupa, essencialmente, o conhecimento cognoscivo, desconhecendo os aspectos afetivos, emocionais, intuitivos e cinéticos.
A linguagem abrange não somente os signos lingüísticos, mas também, os signos iconográficos, os sons, a expressão corporal, a exploração sensorial, enfim, parte do princípio de que linguagem é toda e qualquer organização textual que serve como meio de interação social.
É preciso, pois, que se dê ênfase aos estudos semióticos, a fim de oferecer instrumentos necessários que defendam os educandos contra a massificação e mitificação tão característica de quem consome técnicas de comunicação, de forma passiva. Valendo-se da semiótica e da criatividade, o homem reduzirá as probabilidades de ser um mero objeto, à mercê de forças externas e aumentará como sujeito a viabilidade de dominar essas forças, permitindo-lhe ser um “consumidor” perceptivo, inteligente, seletivo, e crítico.
Não sendo assim, a massificação será causada, pois o homem será capaz de ler outros signos, além dos signos lingüísticos. Como afirma Paulo Freire, “a leitura do mundo precede a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade daquele”. O ato de ler começa quando, por meio de nossa percepção, tomamos consciência do que os signos do mundo evocam ou sugerem.
A linguagem, numa perspectiva global, a comunicação “Kinésica” nos colocam no caminho direto para o estudo da linguagem da ação.
As novas linguagens nos evidenciam que comunicar-se não consiste somente em transmitir idéias, mas sim, em oferecer novas formas de ver as coisas, influenciando e até, modificando os significados ou conteúdos.
A linguagem, em sua essência mais profunda, é uma linguagem total no maior sentido humana que se possa dar. A linguagem humana exige que todo ser humano interaja. A interação é para o ser humano uma forma de realizar-se, de constituir-se, de completar-se.
A ciência dos significados na ação pedagógica procura fazer com que se descubra, na “práxis”, o conhecimento e o manejo da linguagem verbal, associada harmoniosamente a todas as outras linguagens de que dispomos.
Texto publicado no Jornal Expressão. Grafite Editoria e Marketing. No 05. dezembro/1992.